Deve referir-se outra interpretação que origina directamente das duas personagens que prendem Prometeu nas passagens iniciais da peça Grega. Penso no inimitável Taylor Mead (poeta underground e personalidade do cinema) que retrata, num compósito, as duas personagens de Ésquilo: o Poder e a Força. Alguns espectadores, depois de verem The Illiac Passion (um deles discordando da sua necessidade no filme!), viram-no como um elfo, uma imagem-fogo (isso devido ao fato que escolhemos para o seu retrato). Nenhuma destas interpretações dos espectadores do filme, por mais válidas que sejam, correspondem às do cineasta: no filme, Taylor Mead é o oposto da Musa, um Demónio: um Demónio em toda a acepção da palavra grega. Apenas temos de pensar sobre do filme para concordar com essa interpretação. O Demónio e a Musa, habilmente interpretada por uma Musa real, Peggy Murray, são sempre mantidos em separado; ou seja, nunca são vistos, ou sobrepostos na mesma cena ou exposição. O mesmo não acontece com a personagem de Eros, sobre a qual falarei mais tarde.

Talvez seja útil informar o espectador e o leitor interessados no meu trabalho, que The Illiac Passion se transformou a dois níveis, numa viagem odisseica e visual do cineasta (sem entrar em detalhes). A partir do momento em que a figura de Beauvais surgiu naquela noite quando trabalhava na Marboro Books em Greenwich Village, em Nova Iorque, e alguém me sussurrou é este o Prometeu de que andas à procura, até à escolha final de Jack Smith (o cineasta de Normal Love) para o papel de Orfeu, este filme atingiu todos os nervos, fibras e músculos do meu Ser. Isto parece apropriado, pois não era Prometeu visitado diariamente por aquela águia teimosa enviada por Zeus?! Uma águia que nunca vemos no filme, mas cujo grito penetrante ouvimos. Um grito estranhamente americano; um grito que contém os elementos dos que erram, dos incompreendidos.

Para aqueles que acharam apropriado ignorar a menção ao meu trabalho ou impedir a retrospectiva dos meus filmes em Knokke-Le-Zoute, para os que disseram que The Illiac Passion era bonito, ou auto-indulgente, este som da águia é apropriado. É o seu próprio grito contra a incapacidade de defender não só as coisas do amor, mas também para defender as coisas do Cinema.

Quem são ou deixam de ser as outras pessoas do filme, não é relevante para este texto. Posso nomear alguns: John Dowd, o pintor, interpreta Endimion; Wayne Weber interpreta Ícaro; Stella Bittleson interpreta a figura de uma Deusa da Lua; Paul Swan interpreta o papel de Zeus de forma tão comovente; Gregory Battcock, o crítico de cinema, interpreta o papel breve de Phaeton – um papel de tal importância, que certamente será tratado de novo num qualquer projecto futuro; Gerard Malanga, o poeta, no papel de Ganimedes; e claro a Pandora de The Illiac Passion, Margot Breier. Que estes indivíduos maravilhosos, jovens de espírito, prontos para o desacato, tenham aparecido como o fizeram cerca de 1964, é um testamento da cena de Nova Iorque, da áurea do cinema nesse período. Duvido que pudesse ter surgido em qualquer outro período. Pessoalmente, e penso no filme, por mais caótico que seja, fiquei satisfeito que tivesse sido feito quando foi. Pergunto-me o que teria acontecido se tivesse sido feito noutro local, no Ohio durante o tempo em que lia Prometeu Mal Agrilhoado de André Gide! Não que alguma vez tenha concordado com o destino da águia a ser servida à personagem de Gide; porque no final, a águia Tempo devorou o próprio Gide.