As figuras e personalidades mais relevantes do New American Cinema começaram a surgir a pouco e pouco, e Jack Smith continuou a pedir-me para entrar no filme; no entanto, não conseguia imaginar qual a personagem que melhor lhe conviria. Também lentamente, comecei a filmar. Como não tenho os meus cadernos de notas aqui em Bruxelas, apenas me lembro que o primeiro mito que resolvi foi o de Narciso. O que talvez seja apropriado por ter sido tantas vezes acusado de ser narcisista, do mesmo modo que mais tarde me acusaram de auto-indulgência; mais cedo na minha carreira, o meu trabalho foi acusado de ser estático demais: por exemplo, Lysis. Esse filme, posso dizê-lo, foi um primeiro apontamento do que viria a ser The Illiac Passion. Apercebi-me disto, extático, depois do primeiro visionamento. Tudo o que estava em Lysis reverbera com vida, música e com a palavra dita em The Illiac Passion; e estou grato por isso.

A inspiração para The Illiac Passion tem origem na peça de Ésquilo, Prometeu Agrilhoado: e da multitude de impressões que tinha acerca de como seriam as duas peças, agora perdidas, da sua trilogia. Guardei no meu próprio círculo dourado de inspiração algo que li quando era estudante, num ensaio maravilhoso de Gordon Craig: o actor da peça devia aparecer nú no palco. Decidi então filmar nú o actor modelado em Prometeu. O clima em Nova Iorque estava propício, e não tive qualquer dificuldade a partir do momento em que encontrei o actor, em filmá-lo nú, ou, de forma mais difícil, em revelar a película. Apenas mantive três das personagens principais da peça de Ésquilo: Prometeu, Poseidon e Io. Prometeu (apesar de nunca com aparecer com esse nome no filme) foi retratado por Richard Beauvais. Poseidon, que já não surge numa banheira, mas a pedalar numa bicicleta de exercício, foi retratada por Andy Warhol. E Io, já não perseguida por um moscardo, mas mostrada com uma espécie de áurea subterrânea, lentamente a transformar-se em porcelana e imbuída de uma qualidade asiática, foi retratada por Clara Hoover. Dos três elencados, filmei mais com Richard Beauvais. As imagens com Andy Warhol foram filmadas numa noite, com a Life Magazine a registar o evento em fotografias a cores; nunca foram publicadas. As imagens com Clara Hoover foram filmadas ao longo de duas ou três semanas; uma parte das quais debaixo de temperaturas negativas com Richard Beauvais em Lloyd’s Neck em Long Island.

Se a inspiração central para as três personagens principais (apesar de Beauvais ser a única personagem principal) foi a peça de Ésquilo, a inspiração central para as personagens míticas, se assim lhes quisermos chamar, foram os mitos Gregos que sempre me causaram tanto júbilo: os mitos de Narciso e Eco, Ícaro e Daedalus, Jacinto e Apolo, Vénus e Adónis, Orfeu e Euridíce, Zeus e Ganimedes, e muitos outros. Usando-os de modo pontilhista, como pontos de partida iluminados e exóticos, permiti-me divagar, viajar através das emoções dos actores que encontrei durante a minha odisseia; até que, finalmente, na última versão de The Illiac Passion, os actores se transformaram apenas nas moléculas do protagonista desnudado, a rodopiar e a debater-se, apaixonados, agrilhoados e soltos, a passar de situação em situação no vasto mar de emoções em que se transformou a tarefa orgulhosa do cineasta.