Antes de começar a filmagem, Eros perguntou: “Qual vai ser o teu método de trabalho? Como vais começar?” Fez-se silêncio. Os padrinhos do cineasta, Disciplina, Limitação e Determinação Severa queixaram-se. Mas o pão escasseava na ilha de Blest, em Gotham.

E no entanto, todos pareciam saber exactamente aquilo de que ele precisava ou deixava de precisar. A Ford Foundation rejeitou-o como potencial cineasta. Mas a necessidade de começar, que todos os cineastas conhecem em segredo, galvanizava o ambiente em seu redor; tomavam forma as notas acerca de cada mito, respeitantes às várias versões, a diversas traduções da lenda de Prometeu, o cruzamento dos arquivos de imagens da New York Public Library e de várias bibliotecas privadas. Preparei diversos blocos de notas para referência futura; para ajudar a fixar uma cena ou composição particulares, um dado movimento. Os locais de filmagem foram seleccionados. Primeiro uma área no Central Park, do West 72nd Street até à 59th Street. O cineasta filmou repetidas vezes as suas personagens nesse local impressionante. No final, utilizou-se muito pouco. As razões para isso dariam outro texto; um texto composto de sonhos e realidade.

Um dos primeiros episódios criado para The Illiac Passion, e o que foi mais trabalhado foi o de Narciso, interpretado por Robert Alvarez. Tal como aconteceu com a maior parte dos intérpretes, o respeito pelo meu trabalho, a atenção aos detalhes do que faço e a sua própria contribuição para o papel são visíveis na versão final do filme. Uma das composições mais notáveis, e um contributo cuja origem é difícil de discernir, é a da breve dança de Narciso, nú num décor cheio de folhas de jornal. Posso dizer que foi filmado no loft de Beverly Grant (a Perséfone – Deméter do filme), contra uma parede de tijolo; e onde cobri o chão preto com jornais que amachuquei e dei forma. Depois vemos a silhueta de Narciso e a minha em sobreimpressão; com um uso breve do ralenti para acelerar o movimento de Narciso.

Do mesmo modo que o filme passa da Ponte de Brooklyn, essa brilhante estrutura adamantina, para as rochas, para a floresta e para a acção das sequências míticas e Prometeicas, também a minha interpretação das diferentes personagens se desloca de história em história; uma história que é sempre contada de um ponto de vista emocional, mais do que convencional ou factual, feita de factos, de uma certeza universal que é o destino das pesquisas mais inteligentes, mas ineficazes, nos mais variados domínios. Muitas vezes, os meus actores, sem o saber, ofereciam-me a solução perfeita. De outras vezes, um amigo sugeria, igualmente sem o saber, a ideia de que precisava, dizendo qualquer coisa que se tornava uma ideia. Por exemplo, uma noite, a referência a Catulo, feita pelo crítico de cinema e meu amigo próximo, H.F., que deu forma e certeza ao cineasta para se filmar a si próprio junto com a figura de Ícaro: uma vez ao espelho e outra a rolar uma maçã sobre o corpo de Ícaro. Certamente que Catulo não se importou!

Mas as composições dos actores e os diferentes métodos de filmar foram incontáveis: tanto quanto os fotogramas que travaram uma luta sem fim, por vezes entre si, para se transformarem no que são: planos, sequências, os noventa minutos finais do trabalho. Filmei regularmente com Beverly Grant no seu loft, a fabulosa Demeter e Perséfone em The Illiac Passion, acedendo ao seu pedido. Tive a ideia de entrar numa cena em que ligava a câmara, entrava no plano, falava com Grant e saía. Essa cena está no filme e podem ver-se fragmentos do material que trabalhei ou que queria trabalhar. Acerca desta cena, gostava de acrescentar que no filme o cineasta é visto a trabalhar tal como descrevo, e o plano com que faz raccord é o que discutia: um belo grande-plano de Grant, Perséfone no submundo; o rosto sobreimpresso sobre e sob uma esfera celestial.