Pode parecer que estou a revelar pouco sobre a produção do filme, mas na realidade, estou a revelar tudo. Temos o filme final para o provar: o comprimento final do filme e o que foi entregue ao laboratório; as duas viagens que fiz aos Estados Unidos num período de três semanas para completar o filme; todas as decisões feitas para melhorar a forma do filme; a prova da decisão sem precedência do júri do festival de cinema experimental Knokke-Le-Zoute; a decisão do cineasta em libertar o filme. Todas estas servem de equação e são a consciência de The Illiac Passion. Mas sobretudo, e descontando as decisões do júri, com e sem as opiniões sinceras dos jornais no nosso país de origem, a consciência de um filme brilha de certeza absoluta perante o público encantado perante o campo do ecrã: foi assim em Knokke-an-Zout. Não digo isto em primeira mão porque fiquei doente com um ataque de rins na noite em que o filme passou duas vezes no Casino em Knokke; soube através de uma série de visitas ao hotel e de notas escritas depois da projecção.

Com todas as dificuldades, agora lendárias, que encontrou The Illiac Passion, posso acrescentar que, ironicamente, nunca vi o fime inteiro de uma vez só sem interrupção. No entanto, quando me perguntam acerca deste símbolo ou personagem, vejo-o com gáudio. Vejo que sou, eu, o cineasta, nos degraus com o seu bloco de notas ao início do filme; que sou eu, o cineasta que sobe as escadas a correr, a ler o seu fotómetro: a cena é sobreimpressa com a imagem de um motivo granítico de flores e de pássaros. E que sou eu, o cineasta, na cena com o espelho quebrado, a Musa e a câmara que faz zoom, o cineasta que apaga a luz; que muitas vezes é a mão do cineasta que entra e aponta, pede uma direcção ou um movimento dos seus actores. É o que acontece no caso da cena na sala de desenho com a Deusa da Lua e Endimion, ou mais tarde no filme: o cineasta entra numa cozinha, empurra o candeeiro verde de tecto enquanto Orfeu está à janela. E que é esse o comprimento do meu filme: Prometeu, as suas paixões, as suas observações, o cineasta sentado à secretária a decidir, a decidir.

Agora The Illiac Passion está terminado. O filme projectado uma e outra vez, os símbolos recorrentes do trigo, da maçã, do crescente, a Musa sobreimpressa com a figura de Eros vai entusiasmar os espectadores. Dentro destes, o Espectador do Novo Cinema, existirão aqueles que estão prontos a compreender, que estão determinados a fazê-lo, que não estão cansados para perceber o simples método das imagens. O simples e rico método do cineasta a cantar as suas imagens com o jogo dos mitos na peça de Ésquilo. O cineasta a cantar a tradução notável de Prometeu Agrilhoado feita por Thoreau. Que não necessita de uma pausa para respirar melhor, que não precisa de parar para pensar como se relacionam as personagens nas suas Paixões. Que não precisam de tempo para emergir no meu lago de Lembrança e Esquecimento.