O dia em que filmámos no Jardim Botânico do Bronx foi cheio de ansiedade. Aí, no meio de flores e palmeiras, cuidadosamente identificadas (cuja identificação tirámos e voltámos a pôr), Grant e eu filmámos as cenas de Perséfone no submundo e as da sua subida à Terra. Como precaução coloquei cada bobine de filme nos bolsos do meu casaco; no caso de alguém nos querer impedir. Ainda mal tínhamos terminado a nossa deliciosa sessão de filmagem, quando surgiu um jardineiro que nos ameaçou com a polícia (especialmente por Grant estar vestida de Perséfone com um
negligée preto). Sem esperar que ele o fizesse, precipitámo-nos para a estação de metro mais próxima, sem ter a certeza se o nosso material era bom ou mau. Noutra vez, estava a chover. Pedi à Miss Grant para descer a uns esgotos da Con Edison, e pedi-lhe para ficar calma e quieta caso fossemos perseguidos pelos electricistas da Con Edison. Aconteceu o inevitável e registei tudo com a minha lente de zoom.

Estas são apenas algumas das coisas que se passaram. Em termos da produção fomos forçados a ir até ao fundo, a filmagem involveu pedidos constantes de financiamento, pedidos incríveis por carta: manipulações do meu pobre livro de cheques; e outros assuntos que tornariam ridículas as Mil e Uma Noites de uma qualquer era. Mas durante The Illiac Passion diverti-me muito com as minhas aventuras e desaventuras. Foi apenas muito mais tarde, quando tive de encontrar fundos para a impressão que arrisquei a minha saúde; que artista é que não o fez? É uma exigências de Zeus; deixemos as outras exigências por nomear.

Sempre em 16mm. Com a câmara Bolex Reflex emprestada por Jonas Mekas ou Charles Boltenhouse, transportada à noite num saco da Pan Am, com algumas bobines de filme, dois cabos de extensão, uma ou duas lâmpadas Kelvin de 3200 graus (tipo cogumelo, a dois dólares), com as minhas notas e o tripé da luz debaixo do braço, regressava ao meu santuário na 40 West 11th Street em Nova Iorque onde dormia até à manhã seguinte. Desta forma, o sono, sem pensar em comer, provou ser o cobertor de Morfeu; uma oração ligada aos sonhos da infância, com a chama da inteligência de uma criança.

Outras vezes, fazia o meu caminho diário até ao escritório da Film-maker’s Cooperative onde procurava formas de ajuda, cartas a anunciar conferências daí a vários meses; ou apanhava o metro até ao laboratório (por vezes recorria a dois) para deixar o meu filme a revelar e ir buscá-lo, por vezes, semanas mais tarde. Estas humilhações diárias estavam inscritas de modo evidente no próprio filme, na minha relação com o que é Nova Iorque. Quantas vezes me lembrei do que me costumava dizer o meu velho amigo que me deu o primeiro emprego real em Nova Iorque, David Crawford (morreu de cancro do estômago), no seu apartamento em Washington Square (cerca de 1960): “Se há alguém que sobrevive em Nova Iorque, tu, Gregory…” Aprendi desde então e durante os anos que se seguiram o que David Crawford queria dizer. Posso afirmar agora que Nova Iorque é uma cidade provinciana e insular.

Para o cineasta, o aborrecimento de procurar ajuda de filme para filme, de produtor em produtor, de fundação em fundação (e habitualmente recusado), mesmo antes de completar o filme e de começar outro, parece interminável; e é este gasto de energia que se evapora perante a abundância, que o torna silencioso quando não moroso. Porque apesar de existirem indivíduos que ajudam os cineastas e os seus filmes do modo que lhes parece mais apropriado, não percebem as subtilezas e simplicidades necessárias ao sucesso de cada um deles – nenhum cineasta é igual a outro. Se aqueles que ajudam não reclamam o privilégio de dar opiniões, arrogam-se o direito de serem os Donos: uma das doenças deste mundo. Para permanecer alheado e resoluto perante estas doenças, o cineasta pode escolher a incomprensão devido ao seu método de trabalho, em vez de aceitar as soluções de mau gosto usadas no mundo do comércio, sobretudo no mundo da Arte de Nova Iorque, Chicado, Dallas e Los Angeles.